A impressão 3D está pronta para mudar a construção de nossas casas A tecnologia pode tornar a construção mais rápida, barata e verde como nunca antes se viu, diz Anielle Guedes.

Otimistas geralmente vêem o futuro com cidades perfeitamente automatizadas, cheias de tecnologia e livres da pobreza e da fome. A maioria tende a não pensar no caminho necessários para criar este novo ambiente urbano, como se ele fosse emergir miraculosamente como a futurista e planejada cidade de Masdar em Abu Dhabi.

Renderização da cidade de Masdar, Abu Dhabi
Renderização da cidade de Masdar, Abu Dhabi

Mas este não é o cenário mais provável para as cidades do futuro – pelo menos, não se continuarmos a apoiar os velhos modelos de planejamento urbano.

Considere a habitação. Pode parecer absurdo, mas quando métodos convencionais de construção (concreto, tijolos e argamassa) são utilizados para construir 100 m2 no mundo em desenvolvimento, até 45% das matérias-primas são desperdiçadas. Na maioria das cidades, uma casa pode levar até três anos para ser construída, com custos superiores a 30 mil dólares.

Mundialmente, o UN-Habitat (Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos) estima que, atualmente, três bilhões de pessoas precisam de uma casa, e este número deve dobrar nos próximos 15 anos. Portanto, mesmo que os governos locais injetem mais dinheiro em infraestrutura, eles irão falhar em atender as necessidades das pessoas antes que as cidades se tornem imensas favelas.

Já passou da hora de adotarmos novas técnicas para atender a urgente crise de habitação e abrigo. Eu não estou me referindo somente a favelas, ou a reconstrução pós-desastre no Haiti ou no Nepal ou a crise de refugiados no Oriente Médio, Norte da África e Europa. Eu estou me referindo à toda a abordagem de urbanização construção: nós temos que repensar inteiramente como nós construímos, planejamos e regulamos. Não só precisamos construir mais, precisamos construir melhor.

Possuímos as ferramentas tecnológicas e o intelecto necessário para enfrentar o desafio. Impressão 3D é um exemplo. Foi originalmente criada há mais de 30 anos, mas só agora está se estabelecendo como um produto mercadologicamente viável com uma tecnologia verdadeiramente escalável.

Pioneiros da impressão

A tecnologia da impressão 3D é baseada em manufatura aditiva (construir algo depositando o material em camadas) e tecnologias de fabricação digital. Muitas empresas e grupos de pesquisa ao redor do mundo estão pesquisando como utilizar esta tecnologia para construir habitações e abrigos.

“Nós temos que repensar inteiramente como nós construímos, planejamos e regulamos. Não só precisamos construir mais, precisamos construir melhor”
– Anielle Guedes

Uma iniciativa é o grupo de pesquisa italiano WASP, que criou um impressora 3D de 12 metros de altura que pode imprimir cabanas usando argila. Seu principal objetivo é fornecer abrigos em regiões desérticas, como o Norte da África, onde as primeiras estruturas foram impressas. O grupo WASP acredita em utilizar materiais locais para evitar os custos logísticos e ambientais do transporte de materiais de construção ou de pedreiras.

A empresa chinesa Winsun, desenvolveu um método de imprimir pequenas casas de concreto pré-moldado. O inventor da tecnologia afirma que cada unidade pode ser construída com menos de 5 mil dólares e pode ser impressa em 15 dias, pronta para montagem em apenas três horas. A empresa planeja abrir 100 plantas de manufatura nos próximos dois anos.

Outra iniciativa vem da startup brasileira Urban3D, a qual eu fundei e lidero. A Urban3D tem uma abordagem diferente. Para nós, ser capaz de escalar produtos, tanto em tamanho físico quanto em termos de servir milhares de pessoas é crucial. Por isso focamos em usar a impressão para criar processos construtivos mais baratos, limpos, rápidos e sustentáveis que os métodos tradicionais de construção, de modo construir edifícios de concreto de vários pavimentos em áreas urbanas.

A relação custo-benefício é uma parte importante do quebra-cabeça também, a qual nos motiva a utilizar compósitos reciclados para fazer um novo tipo de concreto. Este material reduz o custo de uma casa impressa em 3D em média, trinta porcento. Com o avanço da tecnologia, esperamos que o processo se torne mais de 80% mais barato e pelo menos dez vezes mais rápido que os métodos convencionais de construção pré-fabricada (montagem de “peças” construtivas em uma fábrica).

Camada por camada

Por enquanto, o uso da impressão 3D na construção é principalmente uma forma de modelagem por fusão e deposição: a técnica consiste em depositar materiais camada por camada, deixando-as secar naturalmente. Somente concreto, argila ou materiais silicatos podem ser utilizados neste processo.

Impressão de plástico, por exemplo, poderia fazer com que os canos de PVC para as tubulações, mas isso ainda não é possível – pelo menos não de modo que tornem os canos impressos em 3D mais baratos que os canos de PVC convencionais.

Mas a promessa da impressão 3D é tremenda, considerando especialmente que, a cada ano, o custo da tecnologia cai pela metade, enquanto sua velocidade e área de impressão dobram.

Custo, velocidade e disponibilidade de material são desafios críticos para qualquer novo sistema de construção, particularmente no mundo em desenvolvimento, onde a demanda é alta e o dinheiro é limitado. Estes três parâmetros, junto com os aspectos sociais da provisão de habitações, criam um cenário complexo, não só tecnologicamente, mas também politicamente, economicamente e legalmente.

Futuras melhorias na impressão 3D para construção de casas precisa incluir uma grande flexibilidade arquitetônica, conformidade com as normas de construção internacionais e uma completa automação do processo construtivo. Por exemplo, fibras naturais como o bambu precisariam ser incorporas às normas de construção.

Tais melhorias trariam ao mundo o mais rápido, e talvez o mais barato e verde método de construído já criado, não só para os pobres, mas para todo mundo. Eu acredito firmemente que esta tecnologia não só aumenta e aprofunda o que nós já estamos fazendo – o que significa dizer que a tecnologia, por si só, não salvará o dia. Implementação é a chave do sucesso. E por ser um processo complexo, não somente as empresas e os governos locais, mas uma série de partes interessadas precisam estar envolvidas.

Considerando a escala massiva da crise urbana, o que significa que mais infraestrutura será necessária nos próximos 35 anos que que nos últimos 3500 anos, nós precisamos usar métodos construtivos mais eficientes, e envolver todas as partes interessadas nesta conversa.

Anielle Guedes é CEO e fundadora da Urban3D em São Paulo, Brasil. Ela pode ser contatada em [email protected]

Publicado originalmente em SciDevNet

Tradução: Engenharia Livre

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