Conversamos com a vencedora da Nuclear Olympiad

Nós já noticiamos aqui como a estudante Alice Cunha da Silva venceu a Nuclear Olympiad em Viena, no dia 18. Por e-mail, nós batemos um papo com a Alice para entender melhor como ela conseguiu ganhar esta competição contra estudantes de todo o mundo.

Apresentação

Alice Cunha da Silva, 25 anos, carioca, estudante do quinto ano da graduação em Engenharia Nuclear na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estagio na empresa americana Westinghouse.

Sempre fui bem ativa em atividades extra curriculares: faço Iniciação Científica na área de Engenharia de Reatores desde o primeiro ano da faculdade, organizei Semana de Engenharia Nuclear na UFRJ (junto com outros alunos), participei de congressos e co-fundei e co-presidi a primeira seção estudantil de engenharia nuclear da América Latina (que é a da UFRJ). Ano passado, também participei do Programa Ciência sem fronteiras e fiquei um ano na Pennsylvania State University, nos Estados Unidos.

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Engenharia Livre: Quais foram suas motivações para estudar engenharia nuclear?

Alice: Fiz curso técnico em informática no CEFET-RJ e para me formar eu precisava estagiar. Fiz um estágio no setor de TI do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear, onde tinha que ir à Central Nuclear Almirante Alberto para consertar os computadores dos funcionários do IBQN. Foi assim que a curiosidade pelo setor surgiu. Quando estava em época de vestibular, um amigo me contou sobre a criação do curso de Engenharia Nuclear na UFRJ e resolvi colocá-lo como primeira opção. Eu ainda não conhecia todas as aplicações (até hoje me surpreendo descobrindo novas) mas na primeira semana de aula, me informei sobre as áreas com os professores e comecei a me apaixonar pelo curso.

Engenharia Livre: Qual foi a maior dificuldade que você encontrou durante a graduação? Como você resolveu?

Alice: A maior dificuldade foi o transporte. Passar 2 horas ou mais dentro de um ônibus para ir e voltar da faculdade é realmente um desafio, principalmente quando você precisa estar lá antes das 8h e pegar a avenida Brasil na hora do rush.

Voltar da faculdade ao término das aulas as 17h e pegar o trânsito completamente parado é muito ruim, não apenas pelo desgaste físico, mas também pelo tempo que se perde no trajeto, tempo que poderia ser produtivo. Desde o início da faculdade passei a sair de lá às 19h, 20h ou 21h, assim evitava esse trânsito e passava o tempo estudando. Foi muito bom fazer parte de um laboratório desde o começo, só assim eu tinha um local para ficar estudando, já que a biblioteca do Centro de Tecnologia fecha às 18h e, apesar de algumas outras bibliotecas fecharem mais tarde, em época de greve dos funcionários, todas elas fechavam. Claro que existem algumas pequenas salas de estudo espalhadas pelo centro de tecnologia (prédio das engenharias) mas em época de provas elas ficavam lotadas.

Engenharia Livre: Como sua participação na Nuclear Olympiad agregou à sua formação?

Alice: Como meu foco tem sido a área energética precisei estudar e pesquisar para falar sobre outro assunto na Olimpíada, então aprendi bastante. Também ganhei uma visão mais abrangente de algumas outras necessidades do Brasil e do mundo e, no decorrer da competição, fui descobrindo novas áreas de aplicação da tecnologia nuclear.

Além disso, acredito que como a competição ganhou uma certa visibilidade isso permitiu a divulgação da área e do curso.

Engenharia Livre: Na sua opinião, que tipo de impacto positivo a engenharia nuclear traz para a vida das pessoas?

Alice: A engenharia nuclear impacta a vida das pessoas de diversas formas, desde a não emissão de gases de efeito estufa durante a operação de
uma usina nuclear, esterilização de mosquitos transmissores de doenças (o que diminui sua proliferação) e até medicina nuclear – radioterapia, tomografia computadorizada, exame PET e até mesmo raio-x – que foi o tema tratado no meu vídeo, entre outras diversas aplicações.

Engenharia Livre: Quais são seus planos para quando você terminar sua graduação? Trabalhar no exterior é uma opção?

Alice: Pretendo terminar minha graduação, começar a trabalhar e buscar pós-graduação. O meu foco de estudo tem se situado na área energética, e as vagas de emprego nessa área aqui no Brasil são em empresas públicas. No entanto, o governo decidiu adiar a abertura de concursos públicos o que restringe muito a possibilidade de trabalho no Brasil. Então trabalhar fora é sim uma opção.

Engenharia Livre: Na sua opinião, quais são as perspectivas da engenharia nuclear no Brasil? E quais são os desafios?

Alice: Existe muito espaço para crescer mas acredito que faltam políticas governamentais de apoio a essa área. Falta promoção e investimento.

Na área energética precisamos terminar Angra III e o governo precisa decidir pela construção de novas usinas, mas não descarto a inclusão de fontes renováveis. Acredito que no Brasil há espaço para diversos tipos de fontes, mas as renováveis não oferecem a confiabilidade que uma usina nuclear oferece no sentido de que não importa se está fazendo sol, chovendo ou ventando, uma usina nuclear vai produzir energia 24h/7 dias. Então acredito que deve haver uma balanço entre as diferentes formas de energia no país, aumentar o uso sim das renováveis mas não podemos descartar a nuclear

Na área médica precisamos produzir mais radioisótopos e importar menos. Também precisamos abrir mais vagas para os pacientes que morrem em filas de espera e levar esses tipos de tratamentos para cidades do interior, já que estes tratamentos, em sua maioria, estão concentrados em centros metropolitanos.

Engenharia Livre: Que conselho você daria para os estudantes que desejam cursar engenharia nuclear?

Alice: A UFRJ está de braços abertos para vocês (risos). Façam o curso, é uma área extremamente interessante e importante, mas não se limitem às salas de aula. Pesquisem por conta própria, participem de eventos, se envolvam, porque grande parte do aprendizado acontece fora das quatro paredes de uma sala de aula.

Douglas Moura

Fundador do Engenharia Livre, engenheiro civil e programador. Procuro sempre compartilhar as melhores informações do mundo da Engenharia.
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