Criatividade na Engenharia: O que eu aprendi construindo pontes

Desde que as pessoas começaram a construir pontes, sempre houve, mais ou menos formalmente, engenheiros. Através do tempo, com o refinamento do entendimento dos materiais e da física, a concepção popular de engenheiros levou a disciplina a ser classificada como técnica, ao invés de criativa. Esta classificação não é necessariamente incorreta tanto quanto é enganosa. Engenharia, seja de estruturas, mecânicas ou mesmo de software, é, na sua forma mais pura, um exercício criativo tanto quanto um exercício matemático. Engenharia, enquanto dependente de outras ciências, não é por si só uma ciência. É uma criação sob restrição: a aplicação em aberto do básico, das regras naturais de um sistema para construir algo que não surge naturalmente.

The Crescent City Connection/Josh Moore
The Crescent City Connection/Josh Moore

Um equívoco popular é que um artista é limitado somente por sua imaginação. Na realidade, todos os artistas, todos os criadores, de escritores a pintores, são de alguma limitados pelo seu meio. Os maiores criadores se tornaram grandes por encontrar caminhos para alongar as possibilidades do seu meio, mas um livro ou uma pintura, não importa quão grandes, sempre serão definidos por palavras ou pigmentos. O mesmo vale para a engenharia. Engenheiros trabalham em um meio também, definido diferentemente por um campo, mas em última análise tão restrito quanto. Uma estrutura ou máquina sempre será limitada pelos materiais (e pelo orçamento) usado para construí-la. Uma peça de software sempre será restringida pelos limites dos computadores para qual foi escrita para executar (um grande exemplo disso é a necessidade dos programadores de economizar memória que levou ao uso de dois dígitos para representar os anos, que mais tarde teve que ser corrigido na virada do milênio, quando bytes extras eram mais fáceis de conseguir).

Placa afetada pelo bug em Nantes, mostrando o ano 1900 ao invés de 2000.
Placa afetada pelo “bug do milênio” em Nantes, mostrando o ano 1900 ao invés de 2000.

Sou especialista em pontes, e uma grande quantidade de engenharia de pontes é limitada pelo material e pelo orçamento. Por exemplo, uma árvore por cima de um riacho é uma boa ponte para trafegar a pé, e é barata e fácil de fazer, mas o material é fraco se você quiser dirigir uma caminhonete sobre o riacho. Por outro lado, um bloco sólido de aço pode levar qualquer coisa através do riacho, mas utiliza tanto aço que seria proibitivamente caro. A solução é uma estrutura que, enquanto mais complexa, utilize os materiais disponíveis da maneira ideal. Engenharia de pontes é sobre balancear uma árvore caída com um bloco de aço. Cada decisão que um engenheiro faz é sobre economia; economia de força e economia de material. Uma ponte moderna usa cada um de seus materiais onde eles são mais efetivos e até vai um passo além, removendo o material que não é necessário. Veja a ponte no topo deste artigo – cada pedaço de aço que você vê tem o tamanho exato no local exato, nada a mais, nada a menos. Ainda assim a ponte que você vê acima, mesmo sendo uma solução econômica e segura ao problema de atravessar o rio Mississippi, não é a única solução econômica e segura para este problema em particular.

A_funcao_da_criatividade_no_mundo_corporativo_pc[1]Aqui é onde a criatividade entra, e a necessidade de jogar fora a indigesta imagem do engenheiro como um mero guardador de livros técnicos. Se engenharia fosse apenas um exercício de matemática, haveria um conjunto finito de soluções para qualquer problema de engenharia. Nada pode ir além da verdade. As potenciais configurações de uma ponte para cruzar o rio Mississippi são quase infinitas, abrangendo uma variedade impressionante de materiais, formas estruturais e custos. A resposta certa não é definida por o que é possível, mas para o que é certo para a aplicação do cliente em particular, e não há palavra obscura, nenhuma palavra aberta para mais interpretações além de “certo”.

Pontes são grandes exemplos da obscuridade da solução “certa”. Quando a preocupação é o custo, as soluções são parecidas, usando materiais familiares e configurações tradicionais. Mas frequentemente o cliente procura por mais de uma ponte; eles querem uma ponte assinatura, um adorno para a linha do horizonte e querem pagar por isso (pesquise sobre Oakland Bay Bridge). Estas pontes executam fundamentalmente a mesma função, mas assumem uma forma muito diferente devido à troca do “limite econômico” para o “limite de assinatura”. Estes dezenas de outras restrições também, de solos a tráfego de embarcações que devem ser considerados para projetar uma ponte.

No final o produto de um engenheiro é por definição sempre o que o cliente está procurando. É uma solução sob medida para um problema particular do cliente. Um computador pode projetar uma ponte, com certeza, mas computadores ainda tem que dominar as áreas difusas da otimização que muitos engenheiros dependem para criar com sucesso uma solução implementável para o cliente. Portanto, da próxima vez que você pensar em um engenheiro, jogue fora a noção de que ele ou ela apenas esmaga números o dia todo. Engenheiros reais são criadores originais, dobrando limites para fazer o que era impossível se tornar realidade, usando nada mais do que as ferramentas disponíveis no mundo real. E deste mundo os engenheiros criam um novo.

Texto publicado originalmente no Medium. Tradução autorizada pelo autor.

Jeremy Martin

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