Engenharia vs. Ciência

O que é ciência? E como ela é diferente da engenharia? As duas disciplinas estão intimamente relacionadas e suas diferenças parecem sutis no início, mas ciência e engenharia tem objetivos finais diferentes.

Um cientista tenta obter conhecimento sobre a estrutura fundamental do mundo utilizando observações sistemáticas e experimentos. Cientistas são especialistas em lidar com dúvidas e incertezas. Como o grande Richard Feynman disse: “Quando um cientista não sabe a resposta para um problema, ele é ignorante. Quando ele tem um palpite quanto ao resultado, ele é incerto. E quando ele tem absoluta certeza sobre qual será o resultado, ele tem alguma dúvida”[1]. O corpo da ciência é uma coleção de declarações com variáveis graus de certerza, e de forma a permitir o progresso, cientistas precisam deixar um espaço para a dúvida. Sem dúvida e discussão, não existe oportunidade para explorar o desconhecido e descobrir novos insights sobre a estrutura e o comportamento do mundo.

Da mesma forma, o papel do engenheiro é explorar o campo do desconhecido procurando sistematicamente por novas soluções para problemas práticos. Engenharia é menos sobre saber (ou não saber), e mais sobre fazer; é sobre sonhar como o mundo poderia ser, ao invés de estudar como ele é. Engenheiros se apoiam no conhecimento científico para projetar, construir e controlar hardware e software, e assim aplicar o conhecimento científico para conceber soluções criativas para problemas práticos.

Eu trago este assunto aparentemente supérfluo porque mesmo jornalistas experientes podem confundir, talvez involuntariamente, as diferenças entre os dois campos. Este artigo do The Guardian sobre o pouso do Philae no cometa 67P se refere ao grande sucesso dos “cientistas” em diversas ocasiões, mas falha em dar o devido crédito aos “engenheiros” ao se referir ao seu papel apenas uma vez. Então, pousar uma máquina em um corpo alienígena viajando através do espaço é um conquista científica ou da engenharia?

Sem dúvida não há nenhuma resposta clara para esta questão. Tanto cientistas quanto engenheiros foram indispensáveis para o sucesso do programa Rosetta. No entanto, no que concerne a dar os créditos a fantástica conquista dos engenheiros envolvidos neste empreendimento espacial, eu deixarei com vocês esta pequena carta escrita por três professores da Universidade de Bristol, que captura poeticamente a essência da engenharia:

O pouso de Philae no Cometa 67P da Rosetta mostrou-se uma conquista fantástica (com um susto gigante em 14 de novembro). Um tremendo experimento científico baseado em uma maravilhosa engenharia. Engenharia é tornar o sonho em realidade. Então, por favor dê os créditos a quem eles são devidos: aos engenheiros. O sucesso da ciência ainda precisa ser determinado, dependendo do que nós descobriremos sobre o cometa. Engenharia não é uma serva da Física assim como a Medicina não é da Biologia – todas tem igual importância para o nosso futuro.

– Professor emérito David Blockley, Professor Stuart Burgess, Professor Paul Weaver, da Universidade de Bristol

Referências
“What Do You Care What Other People Think?: Further Adventures of a Curious Character” por Richard P. Feynman. Copyright (c) 1988 Gweneth Feynman e Ralph Leighton

Este artigo foi publicado originalmente no blog Aerospace Engineering, escrito por Rainer Groh, pós-doutorando em engenharia aeroespacial na Universidade de Bristol. Trabalha com a NASA em projetos leves.

Douglas Moura

Fundador do Engenharia Livre, engenheiro civil e programador. Procuro sempre compartilhar as melhores informações do mundo da Engenharia.
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