O seu medo de radiação é irracional? Radioatividade desperta medos primais em muitas pessoas, mas Geoff Watts argumenta que uma percepção indevida dos seus riscos pode causar dano real.

Bad Gasein nos Alpes Austríacos. São 10:00 de uma quarta-feira do começo de março, fria e nevada – mas não na entrada da principal galeria de onde já foi uma mina de ouro. Vestindo um calção, chinelos e um roupão de banho, eu acabei espremido em um dos vagões de uma estrada de ferro de bitola estreita que iria me levar 2 km no coração da montanha Radhausberg.

Bad Gastein, cidades dos Alpes Austríacos. Imagem: Nicole Torelli
Bad Gastein, cidades dos Alpes Austríacos. Imagem: Nicole Torelli

Quinze minutos depois chegamos ao destino e eu estava pronto para aproveitar o que os folhetos diziam ser um ambiente bom para a saúde. Claro que aproveitar é um termo subjetivo. A temperatura dentro dos túneis mal iluminados da montanha é de aproximadamente 40º C com uma taxa de umidade do ar de 100%. O suor começou a escorrer. Mais importante, eu respirava uma atmosfera rica em radônio.

Espere… radônio? Isso é um gás radioativo. Mesmo assim estava lá, com pouca coisa além de um cartão de identificação, nada da proteção de um avental de chumbo, junto com um grupo de pessoas que pagou para ir às Gasteiner Heilstollen (“galerias da cura”) e prontamente, até mesmo avidamente, passar por sessões extenuantes de desconforto físico por conta de uma teoria muito contestada de que pequenas doses de radiação não são apenas inofensivas, mas agem como estimulante da boa saúde.

Nossa visão da radiação e seus riscos e benefícios é complicada e muitas vezes – os prazeres de Heilstollen não obstante – negativas. Estamos todos conscientes dos efeitos de uma arma nuclear, o cenário do Armagedon de um inverno nuclear, cânceres e malformações de bebês causadas por altas doses de radiação e afins. Imagens de nuvens com formato de cogumelo já colocavam medo em nossos corações desde a década de 1940, mas é o que não podemos ver nestas imagens que nos dá mais medo.

A nuvem de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) após a queda da Little Boy e sobre Nagasaki, após o lançamento de Fat Man
A nuvem de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) após a queda da Little Boy e sobre Nagasaki, após o lançamento de Fat Man.

Ameaças invisíveis são sempre as mais angustiantes, e radiação não é algo que você possa ver. Não é algo que possa ser controlado. Muitos anos atrás um pesquisador veterano me contou o quanto ele desejava conseguir poder pintar a radiação de azul. Se ele pudesse vê-la, disse, estaríamos em uma melhor posição para lidar com ela e menos angustiados quanto a isso. O tradicional sigilo do maior usuário comercial de radiação, a indústria de energia nuclear, não tem ajudado. Tardiamente eles perceberam que fazer coisas fora de vista, à portas fechadas, é o melhor jeito de alimentar as suspeitas do público. Assim, entendemos o motivos de tantas pessoas dizerem que (tirando raios-X e tomografias computadorizadas) a única radiação segura é a não-radiação.

No entanto, eu discordo. Eu acredito que o temor justificado de altos e incontroláveis níveis de radiação minaram a nossa vontade de ver se os riscos que a radiação apresenta em níveis baixos são tanto aceitáveis quanto gerenciáveis. Imagine se tratássemos fogo do mesmo jeito que todas as coisas radioativas: teríamos acabado com incêndios em casas proibindo a fabricação de palitos de fósforo.

E também estou preocupado que, como resultado destes temores exagerados, estamos falhando em usar o máximos da radiação para nosso bem maior.

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Para entender a medida de nossa fixação com radioatividade, é só lembrar dos eventos de 2011 no Japão. A magnitude 9 do terremoto e o subsequente tsunami que atingiu o país no dia 11 de março foi sem dúvida um desastre. 20 mil pessoas perderam suas vidas e mais de 500 quilômetros quadrados de território foram inundados. As famílias perderam suas casas, seus negócios e seus meios de vida.

Incêndio na usina nuclear de Fukushima, logo após o tsunami.
Incêndio na usina nuclear de Fukushima, logo após o tsunami.

Não levou muito tempo para os meios de comunicação descobrirem que uma da vítimas, logo quando o tsunami atingiu a costa, foi a usina nuclear de Fukushima. A partir deste momento a história deixou de ser sobre um evento natural e passou a ser, efetivamente, um evento causado pelo homem. Tornou-se um cenário arrepiante: um desastre nuclear.

Das 20 mil mortes, algumas foram diretamente causadas pelo terremoto, enquanto outras foram causadas por afogamento. Quantas mortes foram causadas pela radiação da usina danificada? Nenhuma. Na seção de consequências à saúde da tragédia de Fukushima, o relatório do Comitê Científico sobre os Efeitos de Radiação Atômica da Organização das Nações Unidas diz: “Nenhuma morte relacionado com a radiação ou doenças agudas foram observadas entre os trabalhadores e o público geral exposto à radiação do acidente”.

A dose para o público, o relatório continua a dizer, foi geralmente baixa ou muito baixa. “Nenhum aumento discernível no incidente de efeitos à saúde relacionados com a radiação são esperados entre os membros do público expostos e seus descendentes”.

Isto não é para minimizar o impacto do evento. Três plantas dos reatores nucleares sofreram danos em seus núcleos, e uma grande quantidade de material radioativo foi liberado para o ambiente. Acredita-se que doze trabalhadores receberam doses de iodo-131 suficientes para aumentar seus riscos de desenvolver câncer na glândula da tireoide. Ainda, 160 trabalhadores receberam doses suficientes para aumentar seus riscos de desenvolver outros cânceres. “De qualquer maneira”, diz o relatório, “qualquer aumento na incidência de câncer neste grupo é esperado ser indiscernível por conta da dificuldade de confirmar tão pequena incidência contra a flutuação estatística normal na incidência de câncer”.

Em suma, enquanto um aterrorizante evento natural matou milhares de pessoas, o foco da atenção no Japão e ao redor do mundo foi um único componente da tragédia que não matou ninguém até agora. A exposição à radiação pode ter diminuído a expectativa de vida de algumas pessoas diretamente envolvidas, mas seus efeitos podem ter sido tão pequenos que talvez nunca saibamos com certeza se eles estão relacionados ao acidente ou não.

Quando se trata de um desastre, nuclear supera natural. Nosso senso relativo de importância das coisas é absurdamente distorcido.

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Chernobyl, claro, foi muito pior. Um reator mal projetado operando sob um fraco regime de segurança em uma sociedade burocrática e cheia de segredos era uma receita para o desastre. Em 26 de abril de 1986 todos os ingredientes se juntaram – ironicamente durante uma verificação ruim e experimental de segurança. Um dos reatores superaqueceu, pegou fogo, explodiu e liberou uma enorme quantidade de material radioativo na atmosfera. 116 mil pessoas foram evacuadas; outras 270 mil se encontraram em uma zona descrita como “altamente contaminada”.

"Chernobyl, April 2009" por NASA Earth Observatory - https://flic.kr/p/9BXY79. Licenciado sob Domínio público via Wikimedia Commons.
Região contaminada por Chernobyl, foto de satélide tirada em abril de 2009” por NASA Earth Observatory – https://flic.kr/p/9BXY79. Licenciado sob Domínio público via Wikimedia Commons.

Parece ruim. Para os 134 trabalhadores envolvidas na limpeza inicial, foi muito ruim. A dose que eles receberam foi suficiente para causar doenças de radiação agudas, e 28 deles morreram logo. Em seguida, a desconfiança da informação oficial, junto com rumores acerca das terríveis consequências porvir criaram um medo desproporcional. Um boato circulou durante o período imediato após o acidente dizia que 15 mil vítimas da radiação foram enterradas em uma vala comum. Sequer tais rumores desapareceram; outro no ano 2000 dizia que 300 mil pessoas até o momento tinham morrido por conta da radiação.

Chernobylreactor 1" por Carl Montgomery - Flickr. Licenciado sob CC BY 2.0 via Wikimedia Commons.
Sarcófago sobre o reator 1 de Chernobyl” por Carl MontgomeryFlickr. Licenciado sob CC BY 2.0 via Wikimedia Commons.

A realidade, embora longe de ser inconsequente, foi menos catastrófica. Um grupo de especialistas da Organização Mundial da Saúde foi formado para examinar as consequências do desastre e calcular suas futuras consequências na saúde. Com base na média de exposição a radiação recebida pelos cidadãos evacuados, as pessoas que não foram evacuadas e os milhares de trabalhadores envolvidos na limpeza, o relatório concluiu que as mortes por câncer nestes três grupos irão aumentar em não mais que 4%. A conclusão do relatório foi – e ainda é – contestada, mas o peso da opinião ortodoxa continua a se alinhar com os cálculos da equipe de especialistas.

“Certamente houve um aumento no câncer de tireoide”, diz James Smith, Professor de Ciências Ambientais na Universidade de Portsmouth e coordenador de três projetos multinacionais da Comunidade Europeia sobre as consequências ambientais do acidente. Mas ele continua para adicionar uma qualificação: “Os soviéticos não implantaram medidas suficientes para evitar que as pessoas comessem comida contaminada e bebessem leite contaminado, e isso afetou particularmente as crianças”. Em outras palavras, as mortes não eram completamente inevitáveis.

Qualquer morte causada por qualquer tipo de indústria, idealmente, deve ser evitada. Mas a energia nuclear é mais perigosa que outras formas de energia? Uma revisão publicada em 2002 pela IEA (Agência Internacional de Energia) comparou as fatalidades por unidade de energia produzida por diversas fontes de energia, incluindo carvão, biomassa, vento e nuclear. O estudo incluiu cada estágio da geração de energia, desde a extração de qualquer matéria-prima necessária às consequências da geração e do uso.

O carvão veio ao topo da lista enquanto a energia nuclear apareceu como a menos danosa à saúde. Quando você pensa em geração de energia com carvão, desde os perigos da mineração à poluição atmosférica, esta ordem de classificação não é algo que cause surpresa. Mesmo enquanto a escuridão e a poluição asfixia muitas grandes cidade asiáticas onde mesmo durante o dia é difícil de se ver, mortes relacionadas com a indústria do carvão não mobilizam o mesmo medo ou indignação na mesma escala que um incidente nuclear. Talvez seja a invisibilidade da radiação que alimenta reportagens acaloradas de eventos relativamente menores e, por consequência, confirma e aumenta nosso medo.

Homem usa máscara por causa da poluição na praça Tiananmen, em Pequim, em janeiro de 2013 . Foto: AP
Homem usa máscara por causa da poluição na praça Tiananmen, em Pequim, em janeiro de 2013. Foto: AP

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Uma série de governos responderam aos eventos do Japão em 2011. Mais notavelmente a Alemanha. Embora sem entusiasmo acerca da energia nuclear, a Alemanha havia recentemente aceitado a necessidade de prolongar o período no qual suas existentes plantas nucleares deveriam operar. Os eventos de Fukushima mudaram sua opinião. Críticos da política de mudança foram desafiados a lembrar a última vez que a Alemanha experimentou um terremoto severo, quanto mais um tsunami.

Ironicamente, apesar de ser a nação que reúne alguns do mais estridentes oponentes da energia nuclear da Europa, alemães representavam uma porção significativa de visitantes da clínica rica em radônio em Bad Gastein.

O túnel de Gasteiner Heilstollen onde eu passei 30 minutos respirando radônio tinha espaço para 20 pessoas ou mais que haviam pago por seu “fator de proteção” ou seu alegado benefício em aliviar doenças como artrite reumatóide, asma e sinusite ou doenças de pele, como psoríase.

Gasteiner Heilstollen. Foto: divulgação.
Gasteiner Heilstollen. Foto: divulgação.

O médico responsável no dia da minha visita foi Simon Gütl. Ele me falou dos ensaios clínicos, de pesquisas que atestam a popularidade do tratamento, e de pacientes que são capazes de reduzir ou até mesmo abandonar terapias com drogas que usavam antes. O quanto estas evidências seria classificada como padrão ouro de qualidade eu não tenho ideia, mas fiquei impressionado com o entusiasmo de algumas pessoas ao buscar a mesma força da natureza que muitos pensam que devemos evitar a qualquer custo. Uma das minhas colegas estava perto da sua 70ª visita.

O diretor do Gasteiner Heilstollen é Christoph Köstinger, físico. Aproximadamente 9 mil pacientes, ele conta, fazem uma terapia completa de uma sessão por dia por um período de 2 a 4 semanas, e outros milhares fazem terapias mais curtas. Ele está ciente dos sentimentos conflitantes das pessoas sobre radiação: “Eu divido as pessoas em três grupos:”, ele diz, “aqueles que estão com muito medo de radiação não vêm a nós. Aqueles que não tem medo de radiação e dizem que está tudo bem. E aqueles que tem um pouco de medo, mas você pode, em geral, explicar o risco”.

Ele também está ciente da difundida aversão à energia nuclear na Alemanha. “Alguns pacientes explicam isso a si mesmos dizendo que o radônio é radiação natural”, ele explica, mas deixa claro que como físico, ele sabe que não tem nenhum sentido na distinção entre radiação natural e radiação não natural.

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Deitado na minha cama desconfortável nas galerias Gastein, respirando o radônio, a quanta radioatividade eu estava exposto? Muito pouca. Eu estava dentro da mina por pouco mais de uma hora. Köstinger calcula que, durante um programa de tratamento de três semanas, os pacientes recebem uma dose de aproximadamente 1,8 mSv (milisieverts), três quartos da radiação de fundo de uma ano inteiro, claro, porque estávamos todos expostos a radiação de baixo nível o tempo todo.

Primeira, existe a radiação cósmica vinda do Sol e do resto das estrelas da nossa galáxia e além. O tanto que recebemos de radiação depende da altitude em que vivemos e das flutuações no campo magnético da Terra. E também existe a radiação da própria Terra, incluindo o radônio. Aqui, também, a geografia é um fator: em alguns lugares o radônio pode ser encontrado na atmosfera em quantidades significativamente maiores. Sólidos naturalmente radioativos como urânio e tório na rocha e no solo também fazem a sua contribuição. A média global anual de uma dose de radiação é de 2,4 mSv. Para por isso em perspectiva, isso é equivalente a fazer 120 exames de raio-x no peito.

Muito do que sabemos acerta dos efeitos da radiação no corpo humano vem de doses muito maiores liberadas em explosões nucleares – as bombas lançadas em 1945 em Hiroshima e Nagasaki. A Fundação de Pesquisa dos Efeitos da Radiação estudou a saúde de 100 mil sobreviventes dos dois bombardeios e a saúde de seus filhos.

Os resultados dos sobreviventes si não foi nenhuma grande surpresa. Para cânceres, com exceção de leucemia, um risco excessivo começou a aparece dez anos após o evento. A extensão do risco depende da distância de cada indivíduo do epicentro da explosão, assim como sua idade e gênero. Como exemplo, qualquer pessoa num raios de 2,5 km do epicentro da explosão teve um risco 10% maior de desenvolver um tumor. No caso da leucemia, o excessivo número de mortes começou a aparecer em apenas 2 anos após a exposição, atingido seu pico 6 anos depois.

O que não era esperado foram os resultados das crianças sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki. Assumiu-se que elas eram mais vulneráveis a desenvolver neoplasias malignas de algum tipo, mas este não foi o caso.

“Até agora não observamos nenhum excesso de morte por câncer ou outros motivos”, diz Roy Shore, chefe de pesquisa na Fundação de Pesquisa dos Efeitos da Radiação. Ele também afirma que uma grande parte das doenças ocorrerá nos 30 anos seguintes à exposição, portanto ele não pode ligar completamente a exposição à um efeito tardio. De qualquer forma, as descobertas, até agora são uma surpresa. “Com base em dados experimentais que variam de moscas de fruta aos ratos, nós esperaríamos ver algumas [mortes]”, ele adiciona.

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Dos debates não resolvidos sobre radiação, os mais controversos são acerca da verdadeira extensão dos malefícios (ou dos benefícios, se a evidência de Gasteiner Heilstollen persuade você) que causa em baixos níveis.

Existem duas escolas de pensamento. A visão geralmente mais aceita deriva da conhecida relação entre altos níveis de exposição à radiação e a subsequente maior probabilidade de desenvolver câncer. Trace um gráfico um contra o outro e o que aparece é mais ou menos uma linha reta. A incerteza esta sobre isso ser extrapolado para doses muito pequenas e se existe uma linha, abaixo da qual o risco desaparece.

“Em doses muito pequenas, abaixo de, digamos, uma tomografia computadorizada, não temos uma evidência forte para um caminho ou para outro”, diz Shore. “É uma questão de interpretação”. Ele mesmo vê como prudente a visão de este limiar não existe: a chamada hipótese LNT (linear no-threshold).

A professora Gerry Thomas tem uma cadeira em patologia molecular no Imperial College de Londres e tem um grande interesse nos efeitos da radiação. Como ela aponta, doenças causadas por radiação também são causadas por outras coisas, então você precisa de um grupo muito grande de pessoas para provar se pequenas doses de radiação provocam ou não doenças. “A opinião científica mais difundida é de que não existem dados suficientes para dizer que a radiação só é perigosa acima de 100 mSv”.

Do mesmo modo as autoridades reguladoras da radiação e seus conselheiros apoiam a visão LNT. Limites de segurança são definidos em patamares muito baixos. O máximo limite para a população do Reino Unido, por exemplo é de apenas 1 mSv por ano – menos da metade que a média anual de radiação de fundo que recebemos.

Falando pela clínica de Bad Gastein, Köstinger assume uma visão pragmática. Ele equilibra o risco de uma baixa dose de radiação contra o que ele descreve como o “efeito comprovado cientificamente” do tratamento. “Nos temos um risco hipotético [da radiação]”, ele diz, “mas mesmo no pior caso, ele é mínimo, comparado com os riscos das drogas que nossos paciente podem, em geral, parar de usar. Se existe um risco, podemos viver com isso”. Se o conhecimento científico sugere que existe uma linha de segurança, isso também está OK”.

A conclusão geral de tudo isso é que a radiação não é nada como tão prejudicial quanto o que é comumente assumido. Além disso, o que muitas vezes fica perdido no argumento é que a diferença entre um risco muito pequeno e um risco ligeiramente maior pode não ter nenhuma consequência na prática. Na verdade, os políticos e suas decisões, obcecados com a minimização do risco de radiação pode, na visão mais ampla das coisas, revelar-se contraproducente.

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Importa se um grande número de pessoas tem um medo injustificado de radiação? Afinal, milhões de pessoas têm medos irracionais de muitas coisas, de aranhas à aviões. Nós lidamos com isso. E o mundo ainda gira.

Duas instâncias servem para ilustrar porque temer indevidamente a radiação importa. As duas, de seu modo, são problemáticas para indivíduos e para a comunidade.

A primeira é nossa relutância para explorar a energia nuclear. Desde 1970, a produção global de eletricidade vinda de usinas de energia nuclear cresceu muito. Nos anos 1990, o crescimento continuou, mas num passo mais lento. A partir dos anos 2000, estagnou-se e começou a cair. Mesmo quando a quantidade entusiastas da geração de energia com carbono zero cresceu, o uso da energia nuclear, que não emite gases do efeito estufa, começou a declinar.

Existem muitas razões para isso, como o custo de construção de usinas de energia nuclear e seu descomissionamento. Mas a suspeita do público possivelmente teve um papel chave nas decisões políticas. Nós assistimos como as usinas de energia nuclear atingiram o fim de sua vida útil. Em pânico acerca da prospecção de ocorrer um apagão, nós estendemos esta vida útil. Mas alguns países esquivaram-se da substituição desta usinas, julgando que o risco é superior que a potencial capacidade da energia nuclear limitar significativamente as mudanças climáticas causadas pelo homem. A partir desta evidência, parece claro que o equilíbrio encontra-se predominantemente na outra direção.

As consequências pessoais de um medo excessivo da radiação são, de seu modo, ainda mais danosos. Evidências para isso podem ser encontradas na sequência dos acontecimentos de Chernobyl e Fukushima. O grupo de especialistas da Organização Mundial da Saúde criado para examinar o desastre de Chernobyl informou que o desastre causou um sério impacto à saúde mental e ao bem-estar da população local que foi evacuada.

“Existem histórias tristes de Chernobyl, e mais recentemente de Fukushima, de pessoas evitadas por comunidades onde pensa-se que elas estavam radioativas ou contaminadas de alguma maneira”, diz Smith. “Uma das conclusões da Organização Mundial da Saúde informa que os impactos sociais e psicológicos de Chernobyl foram piores que os impactos diretos da radiação”.

Ele lembra de ter encontrado um pescador em um lago contaminado dentro da zona de exclusão de Chernobyl. “Ele disse que não iria sair: ‘A Segunda Guerra Mundial não me fez sair da minha casa, portanto também não vou sair por conta de um pouco de radiação'”.

“Você não pode dizer com certeza, já que tudo é sobre estatísticas, mas ele provavelmente tomou a decisão correta. Com certeza ele enfrentou um risco adicional comendo a comida local, que estava contaminada, mas o risco que ele teria movendo-se à força para outro lugar para viver um estilo de vida diferente provavelmente significaria que ele teria uma vida mais curta de qualquer maneira”.

Mesmo que as pessoas evacuadas de Fukushima foram menos atormentadas por rumores bizarros, em contrapartida com Chernobyl, eles também sofreram as consequências de um medo injustificado de radiação e seus efeitos imprevisíveis na saúde. Uma pesquisa efetuada em 2012 com os evacuados revela que 1 em 5 mostravam sinais de traumas mentais.

Estresse e os consequentes problemas de saúde mental são inevitáveis quando evacuação e realocação são indiscutivelmente necessários. Mas uma zelosa aplicação do princípio de precaução, assumir sempre os piores casos sobre os efeitos da radiação e grandes margens de segurança promoveram avaliações de risco contraproducentes. Junto com rumores infundados, às vezes impulsionado pelo sigilo por parte do funcionalismo e uma relutância em confrontar suspeitas irracionais, a radiação se tornou o pior pesadelo de todo mundo.

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Retumbando através do túnel de trem na saída do Gasteiner Heilstollen, eu lembrei da ideia de pintar a radiação de azul. Caprichosamente, procurando uma distração para o calor úmido, eu me perguntava como seria se estivéssemos conscientemente cientes da radiação. Não pintando-a, mas de outras maneiras.

Imagine se nossos olhos pudessem ver muito além da região visível do espectro e agisse como um detector de radiação, capaz de sinalizar tudo para o cérebro por meio de uma sensação visual – ou mesmo auditiva. Ou se nossa pele começasse a formigar na presença de radiação. Mas a radiação está em todos os lugares, sempre presente. Se pudéssemos senti-la, seria uma grande distração, o tempo todo.

Uma alternativa feita pelo homem é óbvia: imagine contadores Geiger baratos e universalmente disponíveis, do tamanho de um relógio de pulso configurados para permanecer em silêncio quando exposta a níveis de radiação abaixo dos que causam consequências epidemiológicas discerníveis. Usuários predispostos a ficar muito nervosos com radiação poderiam se surpreender ao nunca ouvir o seu detector fazer barulho. Certamente não durante minha viagem dentro da montanha. Não durante uma tomografia computadorizada de corpo inteiro. Nem mesmo durante um feriadão acampando ao lado do cemitério de Chernobyl.

Mas isso seria suficiente para lhe inspirar confiança?


Este artigo foi originalmente escrito por Geoff Watts e publicado no Mosaic. Está disponível sob a licença CC-BY 4.0

Douglas Moura

Fundador do Engenharia Livre, engenheiro civil e programador. Procuro sempre compartilhar as melhores informações do mundo da Engenharia.
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