Por que existem tantas dificuldades na utilização do EPI na Construção Civil?

Por que, ainda nos dias de hoje, existe tanta objeção na utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI)?

Ao me deparar com esta pergunta, o primeiro filme que veio em minha memória foi Tempos Modernos. Este filme retrata como a indústria operava na época da Revolução Industrial, um filme mudo, porém mais claro que tudo.

Uma cena que me chamou atenção foi a greve promovida pelos sindicatos da época, demandando seus direitos, sem nenhum sucesso. Os operários lutavam pela revisão dos direitos trabalhistas, eram encaminhados diretamente para a prisão, sem qualquer tipo de tolerância, causando a recessão de empregos, culminando no aumento de roubos, gerando a crise econômica.

A personagem principal retrata com maestria o pelotão de frente das grandes indústrias. Charles era um operário que trabalhava na linha de produção, responsável por executar ações continuamente, sem nenhuma perspectiva, sujeito a danos irreparáveis a sua saúde. Na época, não existia nenhum protocolo de segurança para amparar aqueles trabalhadores. 

Hoje em dia, as normas de segurança no Brasil são amparadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego, determinando por lei o que deve ser feito. Porém, encontramos muitos problemas na aplicação das normas, tanto do lado do trabalhador, quanto do empregador. 

No ramo da construção civil, lidamos diariamente com trabalhadores mais velhos, que insistem em dizer que o EPI nunca foi exigido e não será agora que irão utilizar. O mais trágico deste cenário é o contraste entre os interesses dos operários na época da revolução industrial, que lutaram para alcançar condições de trabalho adequadas e a intitulada “frescura” pelo uso de EPI. Vale ressaltar que este movimento para o uso adequado de equipamentos para proteger o funcionário tem tomado força apenas nos últimos 20 anos, se guiando pela evolução em EPIs contra quedas, que não era uma exigência, causando inúmeras mortes.

Em contra partida, temos outra situação recorrente: a falta de colaboração da direção da empresa em relação à utilização do EPI, com casos habituais de empresas desaprovando a utilização de alguns dos equipamentos, adotando apenas a bota e o capacete como norma. A falta de verba acaba sendo outro empecilho para a aplicação de todas as normas de segurança, resultando no envio de trabalhadores para execução da obra sem a proteção necessária, arriscando a vida de seus funcionários.

Essa cultura antiga de que nada vai acontecer, de que tudo é “frescura” do técnico, resultam em pessoas que não enxergam que o maior beneficiado são elas. A utilização de equipamentos proteção adequada tem como objetivo central, o retorno de pais, mães, filhos e filhas para as suas famílias no final do dia.

Flávia Adolfo

Estudante de Engenharia Civil com experiência em projetos técnicos de edificações, reforma em escolas estaduais (em SP) e planilhas orçamentárias para reformas e construções por meio de licitação. Por anos, trabalhei com a elaboração de projetos AVCB/CLCB e laudo de habitabilidade. Nos últimos meses eu tenho sido responsável pela verificação das entregas das escolas reformadas, tendo contato direto com os empreiteiros e redigindo o RDO.
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